25 de agosto de 2011

A Cegueira Que Faz Enxergar

Estava folhando algumas revistas antigas, com páginas já rasgadas- algumas sem capa. Quando um homem entrou na sala do consultório odontológico onde eu estava. Ele tinha olhos lindos e claros. E quando caminhava, com ajuda de uma senhora, parecia que seus pés flutuavam, ele parecia nem depender dela, como se fosse um agrado ela estar ali. Ele era magro e isso ajudava na minha ilusão de ótica. Eu sou míope, mas vi com nitidez quando ele se sentou. Eu estava olhando para fora, tentando ler o que estava escrito na placa em diagonal quando a senhora roliça que usava óculos igualmente redondos e cabelo curto disse: ele é cego. Eu não conseguia parar de olhar para ele, ele estava posicionado em minha direção como se estivesse me observando também e sorria. Eu tive vontade de chorar. Porque eu sempre reclamo de tudo um muito e torno-me chata a ponto de eu mesma não suportar a chatice. Então ele entrou na sala do dentista. E fiquei pensando nisso sem ninguém notar, enquanto fingia ler palavras de uma revista que nem me interessavam, passando os olhos dentre letras, tentando me enganar que aquilo não me afetava. Mas afetava. Porque ele não sabe a cor da roupa que veste, não sabe o formato do dente que vai tratar, não conhece o chão que pisa e talvez ele nem conheça quem o segura pelo braço esquerdo para guiá-lo pela vida. E mesmo assim, ele não se limita ao sorrir para o vazio. Mas quando ele sorriu para o vazio, ele preencheu a sala e apenas eu me senti satisfeita com isso. E eu me limitava, eu era um ser ilimitado, mas me limitava até então, aliás, ainda me limito, eu não me esforço para nada, afinal nem para respirar necessito de esforço, não é mesmo? Mas este homem mudou a minha percepção sem saber. Eu não sei nada sobre ele, além da falta de sua visão e algum possível problema dentário, não sei nem seu nome e a probabilidade de reencontrá-lo é quase nula. Ele nunca saberá que eu estive ali, ocupando uma cadeira frente a ele algum dia e refletindo sobre a visão do mundo por causa de alguém que nem o vê. E, me questionando, cheguei a conclusão que cegos somos nós que não vemos porque nos negamos a ver os pontos positivos que a vida nos oferece, enquanto cegos que, de fato, não têm visão, ensinam pessoas como eu a apreciar um pouco de tudo e ver beleza onde ninguém vê.

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