21 de novembro de 2010

Tic-tac-boo


Havia muita erva seca em cestas- eram medicinais. E quadros de gente que eu nem conhecia. Em alguns cômodos, o chão não era firme o bastante, o assoalho estava preste a quebrar. Alguém irá cair naquele porão cheio de água suja- pensei. Os telefones tinham mais de 30 anos e chiavam de uma forma estranha. Uma lâmpada piscava constantemente. Nas madrugadas, a TV se desligava sozinha. Quando chovia, alagava um quarto que já estava podre do chão ao teto. As janelas praticamente grunhiam feito porco quando as abriam.  Baratas, cupins, aranhas... Eram hóspedes do local. Na cozinha, um relógio com pêndulo que parecia olhar pra você e assusta. Tic-tac-boo.  Enquanto eu escrevia, faltou luz. Minha espinha saltou, gelou, senti medo. O céu escureceu. Aquele era meu lar. Show de horrores particular. Só eu prestava atenção aos detalhes, eu gostava de lá, assim como gato gosta de novelo amarelo sem entender o porquê.

Uma breve explicação desnecessária


Comecei a escrever porque ninguém esperava isso de mim.
E como detesto elogio, parece ironia enrustida.
Escrevo para tirar a podridão interior do meu espírito.
Acordo com olheiras de tanto dormir,
O mundo dos sonhos e pesadelos parece ser mais aceitável.

Minha mente é uma eterna bagunça de 24h.
Memória temporária.
A maioria dos meus pensamentos está no esgoto.
Depois que inalo o vapor do chá de canela, não o bebo.
Minha negatividade está ali.

Não que eu não seja feliz,
Apenas tenho dificuldade
De deixar meu lado melancólico partir.
Eu lamento aqui
Para não lamentar com ninguém.

Se você precisa da minha depressão, leia aqui.
Nunca ouvirá estas palavras de mim.
Este é meu alter ego desabafando.
É minha consciência gritando em letras,
Por ser muda e não ter outro meio.

É assim que me liberto do meu próprio mal,
Deixo as ilusões para minha própria boca dizer.

Descansem (s)em paz

Aqueles discos de vinil caíram sozinhos repentinamente mais uma vez. Como o esperado, não estava ventando. Houve um breve silêncio quando uma música clássica do rock cessou.  Movi meus olhos para baixo, lentamente. Pernas dobradas e pés completamente encardidos de tanto que dancei sozinha sem sapatos e comendo ameixas secas.
Cada coisa se mexia sozinha por aqui, nada precisava de algo pra acontecer. Começou a tocar outra música no micro system. Paredes cheias de mofo, chão sujo, poeira, teias... Eu gosto da imundice.
Quando criança, eu desejava sorte e só conseguia azar. Comecei a desejar o contrário do que era bom pra mim. Nada mudou. Mas tornou a vida mais suportável. Foi a partir daí que o ruim despertou minha atenção.
Gosto de ausência: De cor. De Luz. De mim mesma. Eu mudei o percurso certo, voltei para casa. O mundo lá fora é um grande sanatório, não agüento ficar lá por muito tempo, constantemente fujo, não há outro meio.
Quando os valores sociais vêm com juros, sinto-me um pássaro preso em plena rebeldia.
A partida é mais importante que a chegada. As lembranças são melhores que o momento em si. Lágrimas são mais confiáveis do que sorrisos, são difíceis de serem conquistadas. Os olhos são mais sinceros que os dentes.
Gosto do amargo, triste, deprimente, trágico, complicado, da presença de um trevo de quatro folhas em um acidente de carro, da dor, do sono.
A inquietude humana me aterroriza. Sei que o silêncio total é improvável. Sempre há algo acontecendo, se mexendo, vivendo...
Rosas de plástico nunca morrem. Não sinto inveja. E elas são presentes pra quem já morreu. Ora, quanta merda! Santa ironia. Este planeta é um grande inseticida e está pronto para nos matar, meus queridos insetos. Suicídio mundial? Sim! Calma, calma, calma. Sem desespero, pequenos insetos suicidas... Tomem seus comprimidos e descansem (s)em paz.

16 de novembro de 2010

Delírios Infames

I
Sapatos de gelo
Que queimam
Dos pés até tua cabeça.
Fogo gelado
De uma mente confusa.
Alguém que sabe cantar
Suas melodias de ninar
Está coberto por um velho
Acolchoado rasgado
E com humor rude.
Coração metralhado
Sem ele ao teu lado
Não pode acordar.
Mas não sinta pena
Desta alma penada
Ela não sente nada
Pelo fato de não poder acordar.
Alma penada
Que de penas, não tem nada
Não ama e não é amada
Enquanto fica a flutuar
II
Alma penada
Cansou de sofrer por não sofrer
Sente frio da própria frieza
Fez de amiga a própria natureza
Da vida de gelo que ela mesma fez nascer.
Silêncio, pessoal.
Esta alma vai cantar,
Cantar minhas melodias de ninar
Pois hoje ao sonhar
Poderá amar completamente.
Será diferente
Ousará controlar
O que ninguém jamais tentou.
Plenamente na solidão
Respira coração e bate pulmão!
Façam uma transformação
Agitem meu pensamento,
Maquinem meu cérebro
E me dêem a insanidade.
Minta, minta, minta a mentira
Dê-me a verdade.
III
Vidas maravilhosas
A milhas de distância
De malas prontas para viajar
De encontro uma a outra
Além do vôo horizontal
E enquanto não posso
Caio em vertical
A cada precipício
Criados em madrugadas de sono
Caio sem ti aqui, longe daí.
Sem duas taças de vinho
E dois pratos de macarrão
Tu vives longe
Porém perto, perto do meu coração.

14 de novembro de 2010

Viver é grátis, morrer é lucro.

Deteste dias escuros com pequenos raios de luz em calçadas úmidas, seja extremista, goste do excesso de sol delirante ou do total horror que surge da escuridão.
Agora é assim: um por um e todos por nenhum. Há pessoas que matam por não ser amadas. O egocentrismo está a cada pedaço humano, a cada suspiro que soltam. Até o último suspiro.
Quando abrem a geladeira com carne pútrida, quando se esquecem de regar as samambaias do corredor, quando outros precisam de ajuda e você pensa em acabar com os problemas deles, mas não acaba nem com os seus.
Não conseguimos viver ao nosso modo. Pelo menos, não mais. As pessoas se esquecem da vida, estão alienadas demais. Elas ligam seus aparelhos eletrônicos e se desligam, desligam do mundo, desligam do próprio corpo.
Somos robôs de carne e osso, mas sem cérebro e coração, zumbis do modernismo incontrolável, escravos do poder invisível aos olhos, feridas que não podemos curar e vão ficando sem dor, pois estamos entorpecidos de tédio vital o tempo todo e não nos importamos mais.

Seja onde for: lá, aqui, ali, ali, alienados. Eternamente.

9 de novembro de 2010

O Muro Dos Teus Sonhos.

Klaus, altura média, preguiçoso, 17 anos, anti-social, depressivo e excluído, porém sonhador. Não possuía amigos e nem se lembrava de ter tido algum durante a infância. Em tardes de verão, sentava embaixo de uma árvore que ficava perto de casa. Desde que ouvira que era feio, preferia sombra à luz, o silêncio ao barulho, a solidão à multidão.* Não tinha ninguém, somente os avôs. Eis seu maior sonho- e mais difícil, diga-se de passagem: Ser aviador. Os pais faleceram em um acidente aéreo no ano de 2002, em Porto Alegre. Então, ele concluiu que a melhor vingança seria combater o ar, seu mais forte inimigo, destruidor de vidas e lares- apesar de saber que era isso que o ajudava a manter-se vivo.
Desanimava-se por se isolar da sociedade e não ter forças de lutar. Meu sonho jamais irá se realizar- lamentava. Começou a beber, ficou agressivo, em dias de ressaca se escorava em um muro velho da casa de mesmo estado, fechava os olhos, entristecia, queria mudar mais uma vez, mas para melhor. Não conseguia. Resolveu dar mais uma chance à vida, dizia para si mesmo “Não gosto da vida, mas ela sente uma estranha obsessão por mim” e após dias cofusos, concluiu “acho melhor retribuí-la”.
Terminou o ensino médio naquele ano. Um ano mais tarde, tornou-se aviador, mas confessou uma coisa: Ele ainda se escora em muros para pensar e senta embaixo de árvores para sonhar.

*Nota: Este trecho foi inspirado em um livro de Charles Bukowski, chamado Misto Quente.

Conto criado em meia hora durante uma aula de literatura. Nem esperem tanto de mim.
05.11.10

5 de novembro de 2010

Espere pelo limbo


A verdade é a mais sem-vergonha e prostituta das palavras, quando nua e crua. Perdeu seu valor. É moderna e não se aceita mais como era, faz plásticas e modifica-se, tornando-se cada vez mais artificial.
Não há mais palavras naturais e bem expressadas. Fomos largados em um mundo podre até a camada de ozônio. E o que nos resta é esperar pelo limbo ou reviros eternos no caixão.
Enquanto isso, a mentira usa vestidos longos, casacos de pele e salto alto. É fria, calculada, pensada, planejada... E não há nada para lamentar, somente esperar.

A tendência é piorar, caro inimigo.