23 de julho de 2012

Nossa Vida Em Seus Olhos


Eu olhei em seus olhos amendoados e senti vontade de chorar. Eu lhe disse: olhe, algumas pessoas acham o amor aos 50. E ele me abraçou na cama de cobertores bagunçados de inverno e respondeu: nós o achamos cedo e vamos passar dos 50. E devo dizer que fiquei meio amedrontada por tais palavras de conforto e paixão. E não é isso que as pessoas esperam? A busca eterna pelo maior sentimento humano? O fato de eu nunca estar satisfeita com nada me entristece. Mas não posso negar que ele me faz feliz, a questão é: serei capaz de ter uma vida a dois por longos tempos? Eu sei que cuidamos bem um do outro e ele diz que às vezes até parece um longo sonho. O medo anda entre os espaços do meu ser, nunca gostei disso, tenho medo do que posso me tornar no amanhã, fui tão tola no passado, fui cruel também. Já feri seu jovem coração, mas nos encontramos outra vez, em um dia de verão febril. E começamos a andar de manhã pelas ruas e suas palavras esticaram, e sua alma continuou igual, e ele amadureceu. Já saí da adolescência e continuo com um coração meio de idosa, meio de garotinha amedrontada pela vida, pela morte e pelo sonho. Muitos buscam muito tempo pelo o que eu tenho agora e ficam melancólicos, rudes, depressivos e tantas outras coisas. Eu só tenho uma coisa a dizer: quando você descobre o amor e sabe que ele pode durar mais de três meses e sabe que é capaz de ir mais além, você também descobre a preocupação e a mudança de planos. Descobri tudo isso enquanto olhei por cinco infinitos segundos em seus olhos amendoados, amedrontada pelo amor. O nosso amor. Um longo filme de terror, um bom filme de terror. E seu cheiro fica mais uma vez na manga da minha camiseta, na esquerda, sabe? Pertinho do meu coração. Dizem que ficamos babacas quando estamos nessa situação, dane-se, sempre fui considerada babaca por meu eu do passado, não tem problema continuar sendo assim. E se você confia em mim, eu confio em você e estamos muito bem. 

20 de julho de 2012

O Dia Em Que Voltei A Amar


Reporto-me pra o tal lugar
Dos sonhos obscuros
Dos desejos nada insanos

Eu volto a navegar
Percorro novos mares
E nem sequer sei nadar

Arrisco-me nas profundezas
Do meu ser
Estive todo tempo contigo
Sem te ver, sem me ver

Senti vontade de voar
De me aprofundar na mágoa
De sumir na dor que ninguém vê

Aquela dor que nem tem porquê
Que não faz sentido no planeta
Que ninguém quer saber
Além da curiosidade
Sem compaixão

Porque dor é assim:
Só machuca a quem sente
E os curiosos hão de se remoer

Até que em um dia amarelo
Descobri que nunca estive lá
Nem ali, nem por aí
Eu sempre estive aqui
E nesse dia, te amei.

15 de junho de 2012

A Chuva e Meu Oráculo


Sento em uma cadeira
De mais ou menos minha idade
Sem o dom da escrita
Mas eis que então chove

E chuva, todos sabem,
Causa inspiração
Nas almas mais tristes
De asas quebradas
Pela incompreensão

Choro, mágoa, tristeza, chuva
Mecanismos de desabafo,
Mas seriam de defesa?
E se for de defesa,
Defender do quê?
De mim mesma...!

Dois quadros desbotados
De rosas desbotadas
Com a impressão de que
A vida se desbota
A vida se desbota...
 A vida se desbota...

Ao longo de alguns dias
Que parecem infinitos
Músicas melancólicas
Fazem com que me engasgue,
Sinta minha vontade de chorar

Ver-me no espelho
E não saber, não saber
De quem é aquele reflexo
Sinto-me neurótica,
Mas quem não é?

É triste viver com
Sentimentos mutilados,
Mas, pelo menos,
Sinto algo.
Não ando mais vazia.
E o oco tem seu fim.

26 de maio de 2012

Harpas



Sua presença faz maior a minha solidão
O tempo passa e aumenta a frustração
A culpa é sua se nada me satisfaz?
Humanidade irracional perfura seu fígado
E sou rejeitada por aquilo que rejeito
Lixos ambulantes disfarçados de pessoas
O corpo dói, a alma dói
E ainda conseguimos sorrir para a tragédia
Vejo palavras no ar e escuto harpas dos anjos
Ou dos demônios, já não sei mais
Você quer morrer, mas tem medo da morte
Às vezes eu quero tanto você
E outras, quero que você apenas vá para longe
Se desejos só servem quando não possuímos algo
Deixe eu querer você sem ter você
Pra te querer sempre mais
E harpas angelicais ou demoníacas
Soam em meus ouvidos que doem



20 de fevereiro de 2012

12 Anos de Martírio

Mais uma noite de vinho tinto barato
Agora, embebedo silêncio com motivo
Não é para impedir que violem meu espaço
É para guardar minhas decepções atuais
Que estão sendo conservadas em frascos

Cheguei ao momento mais triste de minha vida
Estou vendo a minha pessoa-modelo fraca
De novo em hospitais, cravando agulhas
Perfurando sua pele, massacrando minha alma
O que será de mim sem você, querido pai?

Aviso a todos minha melancolia interior
Mas esta transbordou e os avisos cessaram
Todos podem ver a derrota em pessoa que sou
Apesar de meu isolamento, alguns vêm e notam

Acho que é nesse momento que meus inimigos
Riem da minha cara, cospem infinitos: bem feito
Se as pessoas não entendessem errado
Não mentissem com forte convicção
E não quisessem ser superiores, eu diria amém

Cada lágrima parece cortar minha face
Em sentido vertical...
Estou vendo meu herói evitando a partida
E eu estou evitando assisti-la
Deus... É tudo tão difícil para nós.

5 de fevereiro de 2012

O Respeito Próprio Que Necessito (Todas As Palavras Que Não Sei Falar, Apenas Escrever )

Oh, aquela sensação de vazio...
Não amando, mas ainda sendo amada
Por que este coração é cruel?
Arritmia cardíaca e nenhum amor
Eu não escolhi ser assim, mas sou

Peço perdão, mas a minha crueldade
Fazia-me chorar, ah, e muito!...
Amores que duram duas semanas e,
Simplesmente, causam claustrofobia
É o medo puro que me tornou assim

No dia-a-dia que corre na esteira
Que pinga no antigo poço de emoções
Nas folhas que caem nos verdes vales
Nos diálogos que pensei e nunca tive
Nos prólogos que jamais existiram

Lá estou. Lá estou. Lá estou!...
Aqui estou, tentando amar o tempo atual
Será que escolhi bem? Posso me redimir?
E então, permito-me amar o tempo
Para poder aprender a amar pessoas.

15 de janeiro de 2012

O Choro Do Pombo

As nuvens parecem vulcões aéreos
Na imensidão que abrange o pôr-do-sol
Mais um dia com o grito abafado e dolorido
Eu penso em você, eu enlouqueço de novo

Estou viajando para longe do que me faz mal
Do que me sufoca há mais de um, dois...
Há quanto tempo mesmo? Não lembro mais

Já nem vejo o tempo passar desde que ele
Começou a se arrastar pelo chão e esvair-se
Pelo relógio, pela porta, pela janela e por mim

Queria poder narrar as cores
Do meu céu prá você
E os tons escuros do absurdo

E agora, tudo está laranja
Estou de preto
Luto contra teu luto

Um drama básico
Para uma comediante
De alma triste

“Faça isso,
Faça aquilo,
Faça de novo,
Faça mais uma vez”

Ninguém sabe o que significa o choro do pombo
Mas sabem responder quando é época de florescer

Você pode me sentir por trás da sua dor?
Você ainda é capaz de exprimir sentimentos?

10 de dezembro de 2011

Pampas Dos Desejos

Queimando por dentro, era álcool- mas sem fogo nada é real. A ausência realmente não une os corpos, mas quem se importa? O passado é só lembrança e lembrança é pensamento. Logo, penso que tudo o que vivi poderia não ser real. Sou confuso, tu também és.

   Além de confuso, sou louco, perturbado e vivo até agora uma vida sem sentido, isso pode continuar, mas não vai, pois eu quero mudar. Vou arranjar sonhos para o futuro, mesmo que para você, eles sejam fúteis, saiba que na verdade, serão um motivo para viver, pois o que realmente quero, posso no fim, nem chegar a ter.

   Falta coragem, falta confiança, faltam palavras pra dizer, falta a certeza para saber se é certo, se o sentimento é recíproco. Se os sonhos vão me querer, se vou ter seus arreios para me guiar ao horizonte, ao pôr-do-sol sulista que insiste em me abraçar e permanecer sóbrio pelos pampas dos desejos pessoais, quase reais, que permanecem na lembrança de um sonhador. 

Luana Bentin, Isac Salustiano, Raphael Marçal.

29 de outubro de 2011

A Insignificância do Cão Selvagem

O berço de ouro revela seu falso brilho
O desinteresse mostra que você sofreu mutação
As melodias calmas que escuta
Faz-te ser mais nervoso, cão selvagem

É como quando dizem 'não chora'
E então tudo desaba ao redor da casa de vidro
Ei, prenderam-no em correntes invisíveis?
Você parece estar sempre no mesmo lugar
Tudo está claro demais, porém paira
                  
Irmãos que você rejeita por ter sido rejeitado
No século passado- sem ter consciência disso
Ódio que se esconde por trás da face alegre
Por trás dos risos insignificantes que escondem dor
Ironias e deboches que aliviam mágoas passadas

Fugiu pro Canadá e nem saiu do lugar
Colocou poucas coisas na bagagem imaginária
E uniu-se com a desarmonia das cores
Ficou lá por interesse e saiu com ar de derrota
Ninguém se importa, nem você mesmo. Nem você!

É o arrastar-se como cobra em deserto
É o correr em tardes tempestuosas
É o chorar que não lacrimeja nos olhos castanhos
É o uivo silencioso do lobisomem tristonho
São essas coisas que te fazem mais forte, cão selvagem.

19 de setembro de 2011

Janela Azul

Desejei, mais que alguém, ser um pássaro cinza em dia nublado e tempestuoso como o dia de hoje, pois este não teve medo de se aventurar com as gotas fortes que se chocam com seu pequeno corpo, tornando-o forte ao ser ousado sem a multidão perceber porque a maioria é suficientemente covarde e desatenda, a multidão que se tornou uma grande doença incurável, possuindo uma total cegueira terrena. Não me interesso pelas grandes multidões que sempre estão a ter pressa, sempre têm coisas a fazer e que tem pressa demais na vida para viver. Então tento deixá-las de lado, apesar do grande incomodo que me causam, embaralhando minhas tripas que, em vão, já tentei fazer de ás de copas. Tratemos cada pessoa de forma individual, deixemos esta síndrome de ‘generalização’ que já se tornou tola. Olhei pela janela azul meus desejos obscuros de uma tarde solitária e minhas mágoas estão a escorrer pelas calhas lá fora, enquanto rastejo por minhas veias procurando respostas sábias para perguntas tolas. Um combate entre mim e eu, mais ninguém. Tornei-me minha pior inimiga ao exercer o autoconhecimento, pois me provoco, atiço, lanço veneno para me sentir viva, uma batalha que ninguém assiste e que não se reflete nos espelhos. Mas quem disse que inimigos não nos impulsionam e nos mantêm enérgicos sem parecermos meros mortais por alguns instantes?